quinta-feira, 27 de junho de 2013

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 a gente se parece com o que a  gente ama 


sábado, 8 de junho de 2013

Socorro




terça-feira, 4 de junho de 2013

África tem gosto de Útero

Obrigada Sunga Mututa,


Tem alguma coisa na África. Eu não sei dizer o que é. Mesmo depois de 10 dias em Angola eu ainda não sei definir. Uma coisa que abraça de um jeito quente e aconchegante. Algo parecido com o que a gente sente quando escuta Miriam Makeba, Cesaria Evora, Fela Kuti ou qualquer coisa que eles escutam lá, Kuduro, Kizomba; é o coração batendo num mergulho de carinho e rebolado que pariu a gente.

Chegamos em Luanda e o amigo da cia de teatro da Bahia já foi preso porque tava nos filmando no aeroporto. Meia horinha e soltaram ele, depois de faze-lo apagar. O povo não gosta de ser fotografado. Eles acham que fotografar é "prender a alma" e eu não pude deixar de concordar e achar bonito pensar assim. É mesmo, só que a alma escapole e muda e muda. A primeira coisa que me chamou atenção quando saímos do aeroporto foram os carros de luxo: caminhonetaças, gipizões. Muito trânsito em toda a cidade e nenhum sinal, eles se entendem na linguagem na preferência e do "agora é minha vez". Tem obsessão com engraxar sapato. Tem aquelas máquinas de engraxar, tem gente engraxando, deve ser por causa da poeira. Da poeira das obras e das ruas de terra das favelas. Muitas favelas, e é favela mesmo, as casas são quadradinhos de telha de alumínio e eu pensava num ser humano alí dentro no que deve ser o calor do verão de lá. Eles saem dos "quadradinhos" como se não estivessem ali, vestidos pra mais um dia, andando desviando no lixo, rumo as suas vidas. São homens e mulheres da cidade. Cidade atolada em muito lixo, mas nenhum cachorro dando sopa: há chineses. Quando brotava um chinês de um barraco angolano, chegava a dar um chilt na minha cabeça, eles estão em toda parte mesmo! Desigualdade gritante, esperneante, obras por todos os cantos na parte dos ricos e nenhuma na dos pobres. É igual em todo lugar. A gente não dá conta de tudo. Queria dar conta de mim, daqui, da Angola. É a vida. Não é bonita e é bonita. Luanda. A lua estava cheia nesses dias, deve ser por isso. O por do sol é um bola laranja, igualzinho a do Rei Leão.

Um ditador sucede outro, Angola conquistou a independência de Portugal em 1975 e seguiu com uma guerra civil até 2001. É muito recente. Fiquei orgulhosa quando soube que o Brasil foi o primeiro país a reconhecer sua independência. Durante e após a guerra civil haviam ideais comunistas, me contaram, mas recentemente a duplinha capitalismo-consumismo chegou como um menino tarado e faminto engolindo qualquer sintoma de desejos de igualdade. Eles querem comprar, como todos nós. Somos iguais finalmente. Todos negros. Eles chamam os negros de Bumba, falam um português cantado e gostoso, com muitas gírias em dialetos locais, que dizem estão se perdendo. Entendem como ninguém nosso português brasileiro. Assistem nossas novelas. Essa praga tá em todo lugar, colonizando o mundo com o jeitinho brasileiro. Amam nossa música, cantam de A a Z como se fosse deles, de Céu a Zeca Pagodinho, Clara Nunes e Martinho. É bom que podemos falar "cara", "deu mole", "valeu". Eles falam "cena", qualquer coisa é uma "cena"ou um "mambo". As mulheres carregam tudo, um mundo, na cabeça, e os filhos amarrados nas costas. Muitos bebes que aprendem desde cedo que seu cabelo não é bonito e colocam cabelo comprado, como as americanas. Chamam esse cabelo de "cabelo brasileiro"e é uma obsessão tão grande que qualquer menina pobre se esforça pra juntar $400 dólares de dignidade por um cabelo falso. Vende até no mercado. Os preços são altos, respiremos, o Rio não é a cidade mais cara do mundo, essa cidade é Luanda, cruzes! As vendedoras chamam a gente na rua mandando beijinho, aquele beijinho com barulho, o mesmo que eu me despeço das pessoas que gosto "muack".

Entendi mais sobre o que é ser brasileiro em Luanda do que em Lisboa. Acho que também do que é ser humano. É porque a gente tá tão afastado de tudo, de nós mesmos, que pele tem cheiro de perfume, sovaco de desodorante e sexo tem tato de latéx, então qualquer coisa que seja verdadeira, visceral, intuitiva, que corra sangue e suor e que lembre que a gente é bicho, a princípio assusta, mas depois conecta com nossas entranhas escondidas, largadas num canto do ser,  cheias de poeira, mas ainda sim, nossas, verdadeiramente humanas. Angola é isso, é entranha e tem gosto de útero. 

Gentis, afetuosos, os angolanos se aproximam e ganham nosso coração sem nem pedir, abraçam, beijam, tocam, olham no olho, viram amigos sem nenhuma barreira, falam bom dia, boa noite, tá com fome? De um jeito que cativa tanto que parece que sempre estivemos ali, que somos dali. São fiéis, nos acompanham e cuidam de nós. Dá uma vontadinha de chorar quando eu lembro de umas criaturas. E que música! Cantam e tocam lindas melodias, e mesmo em "africano" a gente entende e canta junto. São ingênuos. Pegamos um taxista chamado Keissy que nos levou ao shopping e combinou de nos pegar mais tarde, e pasmem, deixou pra receber tudo na volta. Eu disse, "mas podemos sumir", ele não ligou, combinou as 22hs e lá estava com sua calça social skinny, dobradinha no tornozelo, up to date na moda européia e seu sapato reluzente. Ficou de nos levar num baile de Kuduro, lá no bairro onde o ritmo surgiu, não rolou, peninha. São elegantes e absurdamente coloridos. É cor e estampa por toda parte, e eu que amo muito tudo isso, ficava vidrada com aquela abstinência de caqui e cor da pele. Tudo vibra e reluz. Queríamos ir num ritual de Candomblé, ver onde nascem os Orixás  mas eles foram mais colonizados que nós e os rituais são mais raros, mais escondidos, tem menos macumbeiro do que católico e crente. Uma artista plástica da Ilha, chegou a ligar e combinar, mas não voltamos lá. A única coisa que ela falou é que nesses rituais eles se vestem todos de vermelho, ao invés de branco. Fiquei curiosa.

No último dia, depois da peça entrou um DJ e eu estava sem querer com meu computador. Tomei a pista de assalto e toquei 4 horas seguidas ou mais, sei lá, foi muito tempo. Arrumei um conselheiro de set fiel, alguns fãs e um apaixonado declarado, que jurava que se eu não tivesse casada ele seria meu namorado em Luanda. Disseram não estar acostumados em ver mulher tocar. Risos. Foi só clássico. Amanheceu. Toquei Beto Barbosa e eles pediram Kaoma. Chorando se foi, pérola da madrugada, a hora do vôo chegou. Eu quero voltar!!!! África não longe não, é logo ali, acho que a gente devia ir menos pra Europa e mais pra África. Fizemos grandes amigos, nos apaixonamos por vários, choramos ao nos despedir. E seguimos outros, foi transformador. Sunga, Raul, Jay, Jarrul, N'golaaaaaaaa!