terça-feira, 23 de outubro de 2012

AOS ÍNDIOS QUE NUNCA VIMOS NEM NUNCA VEREMOS

POESIA EM PRANTOS

Vai ter um dia que do índio não vai sobrar nada
só vai sobrar o museu do índio num bairro distante
completamente vazio de gente
suas penas e suas lanças nas prateleiras
suas lendas também se perderão nos leitos
e nas escolas onde não foram ensinadas
do seu idioma só se falará Ipanema e Copacabana
Cauã e Caique
sem nem saber se é Guanari ou Kaiapó
vão virar pó
dizem que são fracos porque são pacíficos
mas não precisam de parede
pra construir casa
e morrem por tão pouco
começaram morrendo de gripe e de febre
hoje morrem de descaso e de silêncio
morrem porque se matam
os protetores da mata
morrem porque não aguentam
e seu destino mais digno ao invés do genocídio
é o suicídio coletivo
o leito do rio e a Amazonia inteira são iguais ao índio
porque eles também serão dizimados
menos ainda falará deles
sobraremos nós que carregamos seu sangue cada vez mais raro em nossas veias
talvez uma onça pintada, e toda a sua geração
talvez um cardume de piranhas
uma teia
um pé de aipim
talvez o coração da bananeira
ou a árvore de urucum
guardem por nós
o espírito dos índios


                                                                                                                                                                        Foto: Sebastião Salgado