quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pausa no Edital

um pensamento me arrebatou

tem coisas que só faço quando estou em casa sem você

Como:

1) acender incenso
2) esquecer as luzes todas acesas
3) falar sozinha alto
4) fazer côcô de porta aberta
5) ficar mais de meia hora fazendo a mesma coisa sem ir te agarrar
6) Dormir no sofá
7) mexer no computador escutando música com a TV ligada
8) sentir sua muito, muito a sua falta



terça-feira, 17 de abril de 2012

adeus à ervilha

O abandono faz um milagre ruim com as coisas
esquecer é ingênuo o bastante
para ser mortal
tão grave e fatal quanto qualquer outro maltrato muito agudo

outro dia, uma ervilha esquecida deu bicho, deu praticamente uma colônia
ela estava herméticamente fechada num pote de vidro da Etna
mas eu esqueci dela, fiz planos de um caldo que se perderam no cotidiano 
então os bichos cuidaram dela, se apoderaram dela
e fizeram-lhe filhos


as coisas abandonadas
se vingam de nós em silêncio
criam mofo
criam raiva contida
criam traça
empoeiram
se acumulam
fazem complô
se tudo der certo, apenas se esquecem de nós como nós delas
mas geralmente
umidificam
por fim estragam ao relento
ou vão-se embora deixando um rastro fedorento

coisas, assim como pessoas
que queremos perto, que queremos bem
(aquela tia distante, aquele fubá no fundo do armário
aquela planta perdida na varanda
aquele amigo que você não sabe mesmo se está bem, aquela avó que mora em Salvador)
precisam ser cuidadas
pedem no mínimo uma vigília discreta
ou mesmo ligações ocasionais

meramente um olhar sem que elas percebam
apenas isso
faz com elas frutifiquem
ou simplesmente rendam um bom caldo
num futuro próximo

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TOMÁNOCÚ

Eu estou ficando louca, mas acho que não estou sozinha. acho. e eu sei quem é o culpado: A CIDADE. Não é culpa minha, eu juro, é impossível um ser que mora numa cidade grande não enlouquecer, ou não ser louco de nascença porque seus pais também moram na cidade. Ontem eu tive vontade de surtar e mandar todo mundo tomarnocú 2 vezes em menos de 4 horas, não foi só vontade, foi NECESSIDADE, foi por um TRIZ. e eu não estava com nenhum problema pessoal aparentemente muito latente. é loucura mesmo. surto de cidadão. Vou contar o motivo, mas eu sei que ele não é nem um pouco grave e nisso consiste e minha loucura:

Eu tinha 10 minutos pra pagar uma conta no Banco do Brasil, na Cinêlandia, sabe esse em frente ao Teatro Municipal? 10 minutos pra não chegar atrasada numa reunião ao lado, no café do Odeon. Bom, pra começar a PORRA DA PORTA GIRATÓRIA. só pra começar. esse inferno. as pessoas ficam ali em fila. já começa um engarrafamento antes de entrar. todo mundo tem esperança que não vai apitar, que não tem tantos objetos metálicos assim em suas bolsas, então tenta, e ai a porta trava. ok. respira. volta... (pense que tem alguem tentando sair. dai engarrafou pra dentro do banco) dai você deposita seus pertences metálicos, passou. Primeira etapa vencida! Vamos pra próxima: o caixa é no segundo andar. subo correndo. cheguei. a fila não tá tão grande, quantos funcionários atendendo? mais de 4, milagre. dai vem a PORRA DA SENHA, tem q pegar senha, onde? onde? Adivinha? No primeiro andar. ANTES DA PORRA DA PORTA GIRATÓRIA! qual o resultado? TOMANOCÚ!!! Reclamei, alterei a voz, desci bufando, mas segurei, não mandei ninguém tomanocú de fato, os funcionários não tem nada a ver com isso. 

relaxa, respira. o atendimento até que foi rápido.

pá reunião. ok. no café do Odeon tem um couscous marroquinho bom, tinha que acabar antes das 16hs pra passar no Escritório de Direitos Autorais que é ao lado. não deu pra apressar a reunião. chego 16:10, fechou, não pode subir mais. QUEM INVENTOU ESSA PORRA DE QUE FUNCIONÁRIO PÚBLICO SÓ TRABALHA ATÉ AS 16HS? EU TAMBÉM PAGO O SALÁRIO DELES, EU NÃO CONCORDO! E AI?? RECLAMO PRA QUEM? 

Eu aceitei, voltei decepcionada, mas eu tinha atrasado, sabia que fechava as 16 hs, não chegou perto do nível de um tomanocú.

São 16:30. pego o metrô. Já está lotado pra Zona Sul, não tem mais nenhum lugar vago, tem q ir em pé, e apertada. Bufei de novo, que PORRA É ESSA DE METRO SEMPRE LOTADO, PÕE MAIS TREM CARALHO, 16:30 h NEM É HORA DO RUSH AINDA! Mas também não rolou um tomanocú. pensei, me enfezei, queimei uns bons radicais livres com o estresse provocado pelo enfezamento, ou seja, envelheci, mas prossegui. chego na estação General Osório, em Ipanema. Eu paguei o integração Barra, que passa no Vidigal, beleza, pra entrar no Onibus que que rola? Uma fila. Começa a chover. Muito. O que as pessoas fazem? Alguns se dirigem ao ponto de ônibus que é coberto, mas quem tem guarda-chuva prefere ficar na fila e reservar o seu lugar sentado, num trajeto que com certeza vai ter trânsito. Daí o bonde sem guarda-chuva que saiu da fila começa a ficar preocupado, porque gente que chegou depois e TEM guarda-chuva ta indo pra fila - que tá cada vez maior! - e ta ficando na nossa frente nas vagas sentadas! O funcionário do metrô, que também não tem guarda-chuva, por isso tá com a gente debaixo do ponto, fala que o prefeito EDUARDO PAES MANDOU TIRAR 4 ÔNIBUS DA FROTA, porque concluiu que com o corredor expresso não fosse mais necessário, e os ônibus (que o metro ri da nossa cara chamando de Trem na Superfície. é o caralho!) estão sempre lotados! 



Resultado: TOMANOCÚ!!!?? Não. Vamos todos pra fila, é melhor, pegamos chuva esperando 30 minutos o "trem da superfície". Olha, graças a Deus tinha um lugar sentado, era um dos últimos, senão eu não me responsabilizava.

A gente não pode nem mais mandar tomanocú porque a pessoa que merece ouvir está longe. TOMANOCÚ O SISTEMA, TOMANOCÚ A CIDADE E TODOS OS SERES MICRÓBIOS QUE SUGAM E SE FARTAM DELA. TOMANOCÚ EU!


Resultado 2: Eu to ficando maluca mesmo, é sério. e o pior, uma maluca explosiva, o que é altamente perigoso. Tem gente que sofre mais. Imagina quem pega o trem de verdade. Hoje eu tive que pegar novamente o metro as 16:30h, que repito, não é ainda hora do rush. era linha 2 pra Del Castilho. o metrô parecia uma lata de sardinha, com salmão, bacalhau, tudo junto proliferando, e as pessoas pareciam resignadas. Eu mesmo já estava mais resignadinha. Imagina isso as 18 hs?


Isso não é estress. eu que não dou conta mesmo, os argumentos são todos fracos, tem gente que sofre beeeem mais, e não tem vontade de mandar ninguém tomanocú. meu espírito é muito frágil pra enfrentar fila, porta giratória, funcionário público, transito, metrô lotado, chuva, fila de novo. Enfim, bobagens.


Um tomanocuzinho leve pra me despedir.

relaxem, é carinho.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

é mentira

é mentira que o tempo cura
nunca houve frase tão absurda, a partir de hoje quando me perguntarem eu vou falar "não vai curar"
melhora, fecha, passa a dor aguda
mas ferida que é ferida não cicatriza.


o tempo não cura
pra fazer osso, nervo, pele, ou alma colar de novo
assim como se nunca tivesse rompido
é que nem vidro
que estilhaça e enfia no pé, corta a ponta do dedo, sangra a pia
mesmo varrendo sempre sobra um caquinho
tem que ser muito imediato
nem barro, até o aço
sempre fica marcado
pode ser muito cuidadoso
enfaixar, não tocar, colocar remédio, conselho, carinho, deixar quietinho,
ou dependendo da ferida deixar respirar, proteger do sol, da poeira, do mal olhado, do inimigo
e mesmo assim fica aquela marquinha.
sempre fica aquela maldita marquinha.


a gente vai virando um ser que torceu o tendão, que interrompeu uma paixão, que deu com a cara na porta de vidro, que entupiu uma veia, que bloqueou um Natal, que nunca fica no presente quando tal música toca, de um que pé entorta quando chega naquela rua, de um nariz que congestiona quando sente cheiro de jasmim, maresia, ou asfalto molhado, que manca de saudade, de um pulso que nunca mais vai plantar bananeira.


se a memória fosse só na cabeça, a gente tava feito.
mas o corpo guarda, guarda todas as marquinhas
mais que guardar, ele procura por elas, e quando as encontra, se apega
o corpo, a alma, a pele, o pulso, o estômago, o nervo, os lóbulos vermelhos
tudo se transforma nelas
nas benditas marquinhas.



O Ziraldo

Falou uma coisa numa entrevista que eu achei que faz sentido.

Eu sempre ouço falar que deveríamos preparar as crianças pro futuro. Eu acho o contrário: devemos preparar as crianças pro presente. Uma criança feliz no presente, vai ser feliz no futuro. 
                                                                                                                                    foto: Otto Stupakoff

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Em janeiro

fui visitar uma grande amiga. entregar um presente. eu sempre acho que vou passar lá e ficar 30 minutos, mas sempre dura no mínimo 3 horas, ou 1 ou 2 garrafas de vinho e eu saio bebada em pleno meio-dia pelas ruas do Leblon. ela me deu a coisa mais linda que recebi nos últimos tempos. uma frase. talvez eu já tivesse escutado essa frase, mas naquele dia eu a recebi de presente, então foi diferente. ela era pra mim. Veio escrita numa embalagem, dentro tinha um colar de prata com um pingente de cristal que parecia uma estrela.

Aceitar o caos, perceber o caos, transformar o caos

eu, muito acelerada, falo muito sozinha. Pierre me chama de maluca sempre, por causa disso, entre outras cosas, ele diz que falo só em uma quantidade absurda. que quando não falo alto, mexo o lábio, ou seja, penso alto o tempo todo. todo o mistério do meu planeta seria facilmente desvendado por um surdo, pois eles lêem lábios muito bem. Os surdos saberiam mais de mim. Os surdos sabem mais sobre qualquer pessoa. Mas o fato é que falar sozinha me livra de muita coisa, como por exemplo, terapia.  Nunca fiz terapia, e meio que acho legal ter conseguido sozinha superar tanta coisa sozinha. Minha terapeuta é o vento que me escuta, eu falo muito pra ele, repito inclusive, ensaio diálogos, brigas, conversas importantes, invento peças, filmes, repito coisas que aconteceram, que eu achei engraçadas ou tristes. e principalmente, digo coisas que eu devia ter dito. Que pena que me dá, tenho vontade de voltar na cena (isso daria uma cena) e dizer tudo aquilo que devia ter dito. O problema é que sou tão, mais tão distraída, que as vezes nem percebo a ofensa que recebi, e só depois quando chego em casa, percebo " iii aquilo foi uma ofensa". Tarde demais, então, desconto, discuto com o vento. Por isso tenho preguiça de contar minhas coisas pra minhas amigas, porque geralmente já contei muito pro vento. Por isso também tenho preguiça de gente que adora contar e contar e repetir pra todos coisas sobre elas mesmas, são chatas porque não falam com o vento. Também serve pra extravasar a quantidade de pensamentos, ideais e julgamentos. sou virginiana, reflito sobre tudo! E percebi o quanto questiono o tempo todo sobre as atitudes que tomei, se foram ou não éticas.
Consigo enxergar o lado do outro como poucos, e acho que isso é um dom.

eu sei defender meu inimigo

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Tenho uma vontade.
me isolar completamente e escrever, escrever até não sair mais nada. Virar noites e dias e escrever. Escrever é também falar, então mais um vez eu falo sozinha. e quem me lê, faz também o exercício dos surdos. 




Só aquele que leva o caos dentro de si, pode dar a luz a uma estrela dançarina
                                                                                                                     Nietzsche