terça-feira, 10 de julho de 2012

Um Texto pra Beira da Morte

texto pro ORNITORRINCO. 
Uma carta para o Futuro.


hoje. quinta-feira, 17 de maio de 2012. tenho 30 anos. e confesso uma certa inadequação com esse número. demorei pra amadurecer, sempre tive medo da vida adulta, sempre fui criança. e agora? escrevo uma carta para o futuro. para que você abra a beira da morte. muito tempo se passou até ela chegar em suas mãos. não somos mais a mesma. tudo vai acontecer nesse tempo que nos separa. mesmo amanhã não serei mais a mesma. amanhã é o futuro, daqui a 1 segundo tudo também vai acontecer. por conta dessa diferença entre nós vou me chamar de eu e vou te chamar de você. é inevitável pensar que cada dedo que mexo me leva até você e fico pensando que o inesperado vai costurar todos os tijolinhos que venho empilhando e as paredes que venho destruindo. eu tenho arriscado muito. mas estou consciente disso, assumi esse risco porque ele é a unica alternativa. não posso negar nem fugir de mim mesma. para o desespero de minha mãe. ela sonhou que eu tivesse uma carreira considerada estável, mas eu não tive opção senão assumir isso que sou. oh baby me leva, me leva que eu te quero me leva. viver é também amar o futuro, é desejar por ele. eu desejo você. eu construo você. mas não tenho o mínimo controle. posso virar uma mendiga que vende livros, uma atriz dos filmes de Almodóvar, uma perua diante do mar de copacabana, uma mãe que perdeu os filhos. eu não duvido de nada. não duvido mesmo. mas ficaria muito feliz em ter uma familia grande, uma casa com quintal, bichos, plantas, e barulhinho de crianças brincando. que o homem que eu ame me ame. em viver numa cidade mais bacana e menos desigual. e fazer filmes do Almodóvar. e fazer filmes, peças, músicas e livros. eu sempre me permiti sonhar. e sempre me permiti acreditar. me permiti ser boba e nunca tive vergonha de dormir e chorar na frente dos outros. mesmo desconhecidos. principalmente íntimos. mas diante do futuro é tudo é tão frágil. nada permanece sólido. tudo pode acontecer. tudo vai acontecer. me desejo sorte! ontem um amigo me lembrou de um trecho lindo do Edgar Morin que fala que a gente já experimentou tudo desde muito cedo. as maiores alegrias e tristezas. ainda bebês experimentamos um ciclo completo de emoções e transcendência que depois apenas se repete. e se acumula, digo eu. a gente é um acúmulo. a gente não se esquece de nada. escolhi escrever essa carta para você a beira da morte, ou a beira da perda da lucidez, suficiente para entender essa carta. para rir dela. pra rir de tamanha inocência e esperança. se tem uma coisa que não vai mudar entre nós é essa esperança, essa crença na própria crença e essa coragem. acho que isso levarei pra sempre. levarei até você. será que isso se ensina? espero que você tenha ensinado alguém a ter essa CORAGEM. rompi com muita coisa em nome desse risco que se chama amor. intuo que vou viver muito. uma pergunta que não sai da cabeça: como é vivenciar a perda? a perda brutal de tudo. eu (nós) que muito nova vivi a morte tão próxima, eu que nunca me curei, mas aprendi que a gente consegue andar mesmo machucada, pergunto a você, sobreviveremos? se você ainda amar o mesmo homem, vou achar tão bonito. será que esse amor também sobreviverá? será que ele vai gerar filhos como agora eu tanto desejo? senão tudo bem. eu acredito em você. eu acredito. estou apostando minha vida nisso. no agora. e agora mais que nunca, você está diante da maior perda. a perda de si mesmo. como é bonito! é que é tão lindo viver, e nesse segundo seu, nesse último grito, deve ser mais lindo ainda. eu nessa minha juventude desvairada (que também sei, não vamos nunca perder) te dou um conselho. coragem.


http://nomedacousa.blogspot.com.br/

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