terça-feira, 17 de abril de 2012

adeus à ervilha

O abandono faz um milagre ruim com as coisas
esquecer é ingênuo o bastante
para ser mortal
tão grave e fatal quanto qualquer outro maltrato muito agudo

outro dia, uma ervilha esquecida deu bicho, deu praticamente uma colônia
ela estava herméticamente fechada num pote de vidro da Etna
mas eu esqueci dela, fiz planos de um caldo que se perderam no cotidiano 
então os bichos cuidaram dela, se apoderaram dela
e fizeram-lhe filhos


as coisas abandonadas
se vingam de nós em silêncio
criam mofo
criam raiva contida
criam traça
empoeiram
se acumulam
fazem complô
se tudo der certo, apenas se esquecem de nós como nós delas
mas geralmente
umidificam
por fim estragam ao relento
ou vão-se embora deixando um rastro fedorento

coisas, assim como pessoas
que queremos perto, que queremos bem
(aquela tia distante, aquele fubá no fundo do armário
aquela planta perdida na varanda
aquele amigo que você não sabe mesmo se está bem, aquela avó que mora em Salvador)
precisam ser cuidadas
pedem no mínimo uma vigília discreta
ou mesmo ligações ocasionais

meramente um olhar sem que elas percebam
apenas isso
faz com elas frutifiquem
ou simplesmente rendam um bom caldo
num futuro próximo

Nenhum comentário: