segunda-feira, 9 de abril de 2012

é mentira

é mentira que o tempo cura
nunca houve frase tão absurda, a partir de hoje quando me perguntarem eu vou falar "não vai curar"
melhora, fecha, passa a dor aguda
mas ferida que é ferida não cicatriza.


o tempo não cura
pra fazer osso, nervo, pele, ou alma colar de novo
assim como se nunca tivesse rompido
é que nem vidro
que estilhaça e enfia no pé, corta a ponta do dedo, sangra a pia
mesmo varrendo sempre sobra um caquinho
tem que ser muito imediato
nem barro, até o aço
sempre fica marcado
pode ser muito cuidadoso
enfaixar, não tocar, colocar remédio, conselho, carinho, deixar quietinho,
ou dependendo da ferida deixar respirar, proteger do sol, da poeira, do mal olhado, do inimigo
e mesmo assim fica aquela marquinha.
sempre fica aquela maldita marquinha.


a gente vai virando um ser que torceu o tendão, que interrompeu uma paixão, que deu com a cara na porta de vidro, que entupiu uma veia, que bloqueou um Natal, que nunca fica no presente quando tal música toca, de um que pé entorta quando chega naquela rua, de um nariz que congestiona quando sente cheiro de jasmim, maresia, ou asfalto molhado, que manca de saudade, de um pulso que nunca mais vai plantar bananeira.


se a memória fosse só na cabeça, a gente tava feito.
mas o corpo guarda, guarda todas as marquinhas
mais que guardar, ele procura por elas, e quando as encontra, se apega
o corpo, a alma, a pele, o pulso, o estômago, o nervo, os lóbulos vermelhos
tudo se transforma nelas
nas benditas marquinhas.



Um comentário:

A Menina Sem Século disse...

que coisa mais linda.

" a gente vai virando um ser que torceu o tendão, que interrompeu uma paixão, que deu com a cara na porta de vidro, que entupiu uma veia, que bloqueou um Natal, que nunca fica no presente quando tal música toca...."

e no fim das contas acho que a gente eh cada vez mais humano quanto mais marquinhas a gente tem....