quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Agora eu sei porque falo tanto sozinha: 
Eu sou a minha amiga imaginária

terça-feira, 23 de outubro de 2012

AOS ÍNDIOS QUE NUNCA VIMOS NEM NUNCA VEREMOS

POESIA EM PRANTOS

Vai ter um dia que do índio não vai sobrar nada
só vai sobrar o museu do índio num bairro distante
completamente vazio de gente
suas penas e suas lanças nas prateleiras
suas lendas também se perderão nos leitos
e nas escolas onde não foram ensinadas
do seu idioma só se falará Ipanema e Copacabana
Cauã e Caique
sem nem saber se é Guanari ou Kaiapó
vão virar pó
dizem que são fracos porque são pacíficos
mas não precisam de parede
pra construir casa
e morrem por tão pouco
começaram morrendo de gripe e de febre
hoje morrem de descaso e de silêncio
morrem porque se matam
os protetores da mata
morrem porque não aguentam
e seu destino mais digno ao invés do genocídio
é o suicídio coletivo
o leito do rio e a Amazonia inteira são iguais ao índio
porque eles também serão dizimados
menos ainda falará deles
sobraremos nós que carregamos seu sangue cada vez mais raro em nossas veias
talvez uma onça pintada, e toda a sua geração
talvez um cardume de piranhas
uma teia
um pé de aipim
talvez o coração da bananeira
ou a árvore de urucum
guardem por nós
o espírito dos índios


                                                                                                                                                                        Foto: Sebastião Salgado


terça-feira, 31 de julho de 2012

a gaivota

O que tanto me interessa nela?
porque meu olho brilha por ela?
porque ela? porque ela?

Porque pra mim
ela está sempre falando de amor
sempre apaixonada
nela tudo se movimenta, todos se transformam
todos os passos são dados
todos os destinos traçados
por causa do amor.

Um recorte de amor
um pedaço do amor
o amor inteiro.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Um Texto pra Beira da Morte

texto pro ORNITORRINCO. 
Uma carta para o Futuro.


hoje. quinta-feira, 17 de maio de 2012. tenho 30 anos. e confesso uma certa inadequação com esse número. demorei pra amadurecer, sempre tive medo da vida adulta, sempre fui criança. e agora? escrevo uma carta para o futuro. para que você abra a beira da morte. muito tempo se passou até ela chegar em suas mãos. não somos mais a mesma. tudo vai acontecer nesse tempo que nos separa. mesmo amanhã não serei mais a mesma. amanhã é o futuro, daqui a 1 segundo tudo também vai acontecer. por conta dessa diferença entre nós vou me chamar de eu e vou te chamar de você. é inevitável pensar que cada dedo que mexo me leva até você e fico pensando que o inesperado vai costurar todos os tijolinhos que venho empilhando e as paredes que venho destruindo. eu tenho arriscado muito. mas estou consciente disso, assumi esse risco porque ele é a unica alternativa. não posso negar nem fugir de mim mesma. para o desespero de minha mãe. ela sonhou que eu tivesse uma carreira considerada estável, mas eu não tive opção senão assumir isso que sou. oh baby me leva, me leva que eu te quero me leva. viver é também amar o futuro, é desejar por ele. eu desejo você. eu construo você. mas não tenho o mínimo controle. posso virar uma mendiga que vende livros, uma atriz dos filmes de Almodóvar, uma perua diante do mar de copacabana, uma mãe que perdeu os filhos. eu não duvido de nada. não duvido mesmo. mas ficaria muito feliz em ter uma familia grande, uma casa com quintal, bichos, plantas, e barulhinho de crianças brincando. que o homem que eu ame me ame. em viver numa cidade mais bacana e menos desigual. e fazer filmes do Almodóvar. e fazer filmes, peças, músicas e livros. eu sempre me permiti sonhar. e sempre me permiti acreditar. me permiti ser boba e nunca tive vergonha de dormir e chorar na frente dos outros. mesmo desconhecidos. principalmente íntimos. mas diante do futuro é tudo é tão frágil. nada permanece sólido. tudo pode acontecer. tudo vai acontecer. me desejo sorte! ontem um amigo me lembrou de um trecho lindo do Edgar Morin que fala que a gente já experimentou tudo desde muito cedo. as maiores alegrias e tristezas. ainda bebês experimentamos um ciclo completo de emoções e transcendência que depois apenas se repete. e se acumula, digo eu. a gente é um acúmulo. a gente não se esquece de nada. escolhi escrever essa carta para você a beira da morte, ou a beira da perda da lucidez, suficiente para entender essa carta. para rir dela. pra rir de tamanha inocência e esperança. se tem uma coisa que não vai mudar entre nós é essa esperança, essa crença na própria crença e essa coragem. acho que isso levarei pra sempre. levarei até você. será que isso se ensina? espero que você tenha ensinado alguém a ter essa CORAGEM. rompi com muita coisa em nome desse risco que se chama amor. intuo que vou viver muito. uma pergunta que não sai da cabeça: como é vivenciar a perda? a perda brutal de tudo. eu (nós) que muito nova vivi a morte tão próxima, eu que nunca me curei, mas aprendi que a gente consegue andar mesmo machucada, pergunto a você, sobreviveremos? se você ainda amar o mesmo homem, vou achar tão bonito. será que esse amor também sobreviverá? será que ele vai gerar filhos como agora eu tanto desejo? senão tudo bem. eu acredito em você. eu acredito. estou apostando minha vida nisso. no agora. e agora mais que nunca, você está diante da maior perda. a perda de si mesmo. como é bonito! é que é tão lindo viver, e nesse segundo seu, nesse último grito, deve ser mais lindo ainda. eu nessa minha juventude desvairada (que também sei, não vamos nunca perder) te dou um conselho. coragem.


http://nomedacousa.blogspot.com.br/

sábado, 30 de junho de 2012

menina mãe



Carolina
morena d'água
da pele que clareia
a prata
morena de sal
de doce de cachoeira 
no sono da Álvara areia
se multiplicou a sereia
tão linda cantou lá na pedra
que som reverberou na relva
e numa concha como uma pérola
se formou tão preciosa
tão pequena tão cheia de formas
uma menina
Isabela





quinta-feira, 31 de maio de 2012

bem vindo

Hoje eu fiquei extremamente feliz porque:

  • passei o dia todo fotografando meninas lindas de 9 anos que gostam de passar batom e andam pra todos os cantos com aquela calcinha grande de algodão e aqueles peitinhos lisos, que eu tenho tanta saudade
  • firmei parcerias que me deixaram animada
  • usei com uma saia nova que to amando
  • comprei um batom que estou apaixonada pela cor 
  • andei pelo calçadão a noite conversando com uma grande amiga
  • peguei uma van, e ao entrar me deparei com um homem negro de uns 57 anos, ao lado dele tinha uma gordinha com sua filha, que me olhou com enorme curiosidade e eu pra ela e o homem negro me disse sorrindo antes que eu sentasse:
homem - boa noite, seja bem vinda.

sentei e retribui com um sorriso:

eu - obrigada!

meio que maravilhada com a receptividade inesperada.

seguimos em silêncio. ao começar a Niemeyer o cobrador me cobrou, eu abri a bolsa pra pegar a carteira e lembrei do batom com medo de tê-lo perdido, bateu aquele desesperinho típico de pessoas distraídas que perdem objetos com facilidade. ufa, achei. então catei a carteira e tirei 2 reis. abri o bolsinho da carteira e peguei 0,50 centavos

o homem falou brincando:

homem - ela está procurando no meio dos seus dólares
eu - pois é, no meio dessa dinherama eu consegui achar 2 reias! milagre! minha conta tá tão cheia de dinheiro que eu to andando de van só pela experiência. (risos)
homem - não importa como voce vai, quando a gente quer chegar no nosso objetivo, e ele é bom, e ele é justo, a gente tem que ir com quem vai levar a gente até lá, não importa quem. 

nos aproximamos do Vidigal. a van parou, eu desci, a van seguiu. 



segunda-feira, 21 de maio de 2012



Hoje eu floresci
a primavera 
inteira
prateada
brotou tudo
deu rosa
furta-cor
ourou 
reluziu
uma idéia translúcida
de pétala
despertou o jardim
quando choveu
o céu encostou em mim
brumeceu
acordou tudo
entumeci
e explodi jorrando 
veludo e jasmim





Conclusão de Domingo

os Alquimistas

das melhores coisa da vida:
sonhar
e depois se deparar com ele vivo na sua frente
como uma premonição de escultor
transformar pensamento em matéria

m a t e r i a l i z a r

(o contrário também é verdadeiro: tornar a matéria pensamento)

Brincar com o estado das coisas
percorrer os caminhos
entre o concreto e o abstrato
travar pontes entre o ar e o terra
é  tarefa
é dom natural do homem ser mágico
ou ter poderes sobre-ultra-naturais

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outra conclusion

a artista quando acha que dá uma grande contribuição a humanidade com sua arte, que atingiu um nível superior e patati patata, torna-se imediatamente um chato.


tinham outras mas eu esqueci.

domingo, 13 de maio de 2012


a gente se parece com o que a gente ama



terça-feira, 8 de maio de 2012

Alien



pode ser:
um negócio que sai da boca em forma de sorriso
ou palpitação
um sopro no coração
um corpo que reverbera em ondas
vontade de nunca ir embora
pés planando a 2 centímetros do chão
(e a cabeça inventando o paraíso)

alegria espontânea que do nada brota,
na manhã seguinte
em forma de riso que não sai da cara
tem gente que chama de paixão
acho que ainda não


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a manhã revela os segredos
da noite que passou
ela sempre lembra as angustias mais fundas
e multiplica a fossa (o poço)
assim que se abre o olho
ou solta a torneira um pouco
e revela o sorriso frouxo

a manhã sempre sabe
de onde a gente veio







quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pausa no Edital

um pensamento me arrebatou

tem coisas que só faço quando estou em casa sem você

Como:

1) acender incenso
2) esquecer as luzes todas acesas
3) falar sozinha alto
4) fazer côcô de porta aberta
5) ficar mais de meia hora fazendo a mesma coisa sem ir te agarrar
6) Dormir no sofá
7) mexer no computador escutando música com a TV ligada
8) sentir sua muito, muito a sua falta



terça-feira, 17 de abril de 2012

adeus à ervilha

O abandono faz um milagre ruim com as coisas
esquecer é ingênuo o bastante
para ser mortal
tão grave e fatal quanto qualquer outro maltrato muito agudo

outro dia, uma ervilha esquecida deu bicho, deu praticamente uma colônia
ela estava herméticamente fechada num pote de vidro da Etna
mas eu esqueci dela, fiz planos de um caldo que se perderam no cotidiano 
então os bichos cuidaram dela, se apoderaram dela
e fizeram-lhe filhos


as coisas abandonadas
se vingam de nós em silêncio
criam mofo
criam raiva contida
criam traça
empoeiram
se acumulam
fazem complô
se tudo der certo, apenas se esquecem de nós como nós delas
mas geralmente
umidificam
por fim estragam ao relento
ou vão-se embora deixando um rastro fedorento

coisas, assim como pessoas
que queremos perto, que queremos bem
(aquela tia distante, aquele fubá no fundo do armário
aquela planta perdida na varanda
aquele amigo que você não sabe mesmo se está bem, aquela avó que mora em Salvador)
precisam ser cuidadas
pedem no mínimo uma vigília discreta
ou mesmo ligações ocasionais

meramente um olhar sem que elas percebam
apenas isso
faz com elas frutifiquem
ou simplesmente rendam um bom caldo
num futuro próximo

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TOMÁNOCÚ

Eu estou ficando louca, mas acho que não estou sozinha. acho. e eu sei quem é o culpado: A CIDADE. Não é culpa minha, eu juro, é impossível um ser que mora numa cidade grande não enlouquecer, ou não ser louco de nascença porque seus pais também moram na cidade. Ontem eu tive vontade de surtar e mandar todo mundo tomarnocú 2 vezes em menos de 4 horas, não foi só vontade, foi NECESSIDADE, foi por um TRIZ. e eu não estava com nenhum problema pessoal aparentemente muito latente. é loucura mesmo. surto de cidadão. Vou contar o motivo, mas eu sei que ele não é nem um pouco grave e nisso consiste e minha loucura:

Eu tinha 10 minutos pra pagar uma conta no Banco do Brasil, na Cinêlandia, sabe esse em frente ao Teatro Municipal? 10 minutos pra não chegar atrasada numa reunião ao lado, no café do Odeon. Bom, pra começar a PORRA DA PORTA GIRATÓRIA. só pra começar. esse inferno. as pessoas ficam ali em fila. já começa um engarrafamento antes de entrar. todo mundo tem esperança que não vai apitar, que não tem tantos objetos metálicos assim em suas bolsas, então tenta, e ai a porta trava. ok. respira. volta... (pense que tem alguem tentando sair. dai engarrafou pra dentro do banco) dai você deposita seus pertences metálicos, passou. Primeira etapa vencida! Vamos pra próxima: o caixa é no segundo andar. subo correndo. cheguei. a fila não tá tão grande, quantos funcionários atendendo? mais de 4, milagre. dai vem a PORRA DA SENHA, tem q pegar senha, onde? onde? Adivinha? No primeiro andar. ANTES DA PORRA DA PORTA GIRATÓRIA! qual o resultado? TOMANOCÚ!!! Reclamei, alterei a voz, desci bufando, mas segurei, não mandei ninguém tomanocú de fato, os funcionários não tem nada a ver com isso. 

relaxa, respira. o atendimento até que foi rápido.

pá reunião. ok. no café do Odeon tem um couscous marroquinho bom, tinha que acabar antes das 16hs pra passar no Escritório de Direitos Autorais que é ao lado. não deu pra apressar a reunião. chego 16:10, fechou, não pode subir mais. QUEM INVENTOU ESSA PORRA DE QUE FUNCIONÁRIO PÚBLICO SÓ TRABALHA ATÉ AS 16HS? EU TAMBÉM PAGO O SALÁRIO DELES, EU NÃO CONCORDO! E AI?? RECLAMO PRA QUEM? 

Eu aceitei, voltei decepcionada, mas eu tinha atrasado, sabia que fechava as 16 hs, não chegou perto do nível de um tomanocú.

São 16:30. pego o metrô. Já está lotado pra Zona Sul, não tem mais nenhum lugar vago, tem q ir em pé, e apertada. Bufei de novo, que PORRA É ESSA DE METRO SEMPRE LOTADO, PÕE MAIS TREM CARALHO, 16:30 h NEM É HORA DO RUSH AINDA! Mas também não rolou um tomanocú. pensei, me enfezei, queimei uns bons radicais livres com o estresse provocado pelo enfezamento, ou seja, envelheci, mas prossegui. chego na estação General Osório, em Ipanema. Eu paguei o integração Barra, que passa no Vidigal, beleza, pra entrar no Onibus que que rola? Uma fila. Começa a chover. Muito. O que as pessoas fazem? Alguns se dirigem ao ponto de ônibus que é coberto, mas quem tem guarda-chuva prefere ficar na fila e reservar o seu lugar sentado, num trajeto que com certeza vai ter trânsito. Daí o bonde sem guarda-chuva que saiu da fila começa a ficar preocupado, porque gente que chegou depois e TEM guarda-chuva ta indo pra fila - que tá cada vez maior! - e ta ficando na nossa frente nas vagas sentadas! O funcionário do metrô, que também não tem guarda-chuva, por isso tá com a gente debaixo do ponto, fala que o prefeito EDUARDO PAES MANDOU TIRAR 4 ÔNIBUS DA FROTA, porque concluiu que com o corredor expresso não fosse mais necessário, e os ônibus (que o metro ri da nossa cara chamando de Trem na Superfície. é o caralho!) estão sempre lotados! 



Resultado: TOMANOCÚ!!!?? Não. Vamos todos pra fila, é melhor, pegamos chuva esperando 30 minutos o "trem da superfície". Olha, graças a Deus tinha um lugar sentado, era um dos últimos, senão eu não me responsabilizava.

A gente não pode nem mais mandar tomanocú porque a pessoa que merece ouvir está longe. TOMANOCÚ O SISTEMA, TOMANOCÚ A CIDADE E TODOS OS SERES MICRÓBIOS QUE SUGAM E SE FARTAM DELA. TOMANOCÚ EU!


Resultado 2: Eu to ficando maluca mesmo, é sério. e o pior, uma maluca explosiva, o que é altamente perigoso. Tem gente que sofre mais. Imagina quem pega o trem de verdade. Hoje eu tive que pegar novamente o metro as 16:30h, que repito, não é ainda hora do rush. era linha 2 pra Del Castilho. o metrô parecia uma lata de sardinha, com salmão, bacalhau, tudo junto proliferando, e as pessoas pareciam resignadas. Eu mesmo já estava mais resignadinha. Imagina isso as 18 hs?


Isso não é estress. eu que não dou conta mesmo, os argumentos são todos fracos, tem gente que sofre beeeem mais, e não tem vontade de mandar ninguém tomanocú. meu espírito é muito frágil pra enfrentar fila, porta giratória, funcionário público, transito, metrô lotado, chuva, fila de novo. Enfim, bobagens.


Um tomanocuzinho leve pra me despedir.

relaxem, é carinho.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

é mentira

é mentira que o tempo cura
nunca houve frase tão absurda, a partir de hoje quando me perguntarem eu vou falar "não vai curar"
melhora, fecha, passa a dor aguda
mas ferida que é ferida não cicatriza.


o tempo não cura
pra fazer osso, nervo, pele, ou alma colar de novo
assim como se nunca tivesse rompido
é que nem vidro
que estilhaça e enfia no pé, corta a ponta do dedo, sangra a pia
mesmo varrendo sempre sobra um caquinho
tem que ser muito imediato
nem barro, até o aço
sempre fica marcado
pode ser muito cuidadoso
enfaixar, não tocar, colocar remédio, conselho, carinho, deixar quietinho,
ou dependendo da ferida deixar respirar, proteger do sol, da poeira, do mal olhado, do inimigo
e mesmo assim fica aquela marquinha.
sempre fica aquela maldita marquinha.


a gente vai virando um ser que torceu o tendão, que interrompeu uma paixão, que deu com a cara na porta de vidro, que entupiu uma veia, que bloqueou um Natal, que nunca fica no presente quando tal música toca, de um que pé entorta quando chega naquela rua, de um nariz que congestiona quando sente cheiro de jasmim, maresia, ou asfalto molhado, que manca de saudade, de um pulso que nunca mais vai plantar bananeira.


se a memória fosse só na cabeça, a gente tava feito.
mas o corpo guarda, guarda todas as marquinhas
mais que guardar, ele procura por elas, e quando as encontra, se apega
o corpo, a alma, a pele, o pulso, o estômago, o nervo, os lóbulos vermelhos
tudo se transforma nelas
nas benditas marquinhas.



O Ziraldo

Falou uma coisa numa entrevista que eu achei que faz sentido.

Eu sempre ouço falar que deveríamos preparar as crianças pro futuro. Eu acho o contrário: devemos preparar as crianças pro presente. Uma criança feliz no presente, vai ser feliz no futuro. 
                                                                                                                                    foto: Otto Stupakoff

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Em janeiro

fui visitar uma grande amiga. entregar um presente. eu sempre acho que vou passar lá e ficar 30 minutos, mas sempre dura no mínimo 3 horas, ou 1 ou 2 garrafas de vinho e eu saio bebada em pleno meio-dia pelas ruas do Leblon. ela me deu a coisa mais linda que recebi nos últimos tempos. uma frase. talvez eu já tivesse escutado essa frase, mas naquele dia eu a recebi de presente, então foi diferente. ela era pra mim. Veio escrita numa embalagem, dentro tinha um colar de prata com um pingente de cristal que parecia uma estrela.

Aceitar o caos, perceber o caos, transformar o caos

eu, muito acelerada, falo muito sozinha. Pierre me chama de maluca sempre, por causa disso, entre outras cosas, ele diz que falo só em uma quantidade absurda. que quando não falo alto, mexo o lábio, ou seja, penso alto o tempo todo. todo o mistério do meu planeta seria facilmente desvendado por um surdo, pois eles lêem lábios muito bem. Os surdos saberiam mais de mim. Os surdos sabem mais sobre qualquer pessoa. Mas o fato é que falar sozinha me livra de muita coisa, como por exemplo, terapia.  Nunca fiz terapia, e meio que acho legal ter conseguido sozinha superar tanta coisa sozinha. Minha terapeuta é o vento que me escuta, eu falo muito pra ele, repito inclusive, ensaio diálogos, brigas, conversas importantes, invento peças, filmes, repito coisas que aconteceram, que eu achei engraçadas ou tristes. e principalmente, digo coisas que eu devia ter dito. Que pena que me dá, tenho vontade de voltar na cena (isso daria uma cena) e dizer tudo aquilo que devia ter dito. O problema é que sou tão, mais tão distraída, que as vezes nem percebo a ofensa que recebi, e só depois quando chego em casa, percebo " iii aquilo foi uma ofensa". Tarde demais, então, desconto, discuto com o vento. Por isso tenho preguiça de contar minhas coisas pra minhas amigas, porque geralmente já contei muito pro vento. Por isso também tenho preguiça de gente que adora contar e contar e repetir pra todos coisas sobre elas mesmas, são chatas porque não falam com o vento. Também serve pra extravasar a quantidade de pensamentos, ideais e julgamentos. sou virginiana, reflito sobre tudo! E percebi o quanto questiono o tempo todo sobre as atitudes que tomei, se foram ou não éticas.
Consigo enxergar o lado do outro como poucos, e acho que isso é um dom.

eu sei defender meu inimigo

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Tenho uma vontade.
me isolar completamente e escrever, escrever até não sair mais nada. Virar noites e dias e escrever. Escrever é também falar, então mais um vez eu falo sozinha. e quem me lê, faz também o exercício dos surdos. 




Só aquele que leva o caos dentro de si, pode dar a luz a uma estrela dançarina
                                                                                                                     Nietzsche