sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O amor é uma doença como outra qualquer

O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade.


Ferreira Gullar




o texto todo é sublime
http://sonhoepopular.blogspot.com/2009/08/sobre-o-amor-ferreira-gullar-houve-uma.html

domingo, 24 de outubro de 2010

devaneios de domingo

28.09.2010

Estou lendo Os diários de Susan Sontag. Letícia tinha razão. faz tempos que não leio um livro com tanto prazer. esse prazer de ler em qualquer brecha, no intervalo do ensaio, no ponto do ônibus, de levar na bolsa pra qualquer intervalo. como é bom ver a vida, fragmentada, e sincera de uma mulher interessante. e 'QUE MULHER'. ela me inspira. inclusive a retomar minhas anotações diárias. e colocar datas, pelo menos de vez em quando. os números também falam. me lembrei de quando era pré-adolescente, a internet ainda não era acessível e tinhamos costume de fazer diários e muitos vinham com cadeados (fofíssimos). hoje o blog não deixa de ser um diário, mas ele não é privado e isso muda tudo. tem coisas que tenho medo de confessar até para um diário. as piores coisas. as melhores coisas. ser completamente franca ao ponto de cravar isso num papel exige coragem. é preciso ter coragem.

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tenho um cíume egoista das coisas que mais gosto. como livros. tenho ciúmes das coisas que não são minhas.
ridícula.

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ele disse que já beijou todas -todas, todas - as partes do meu corpo

ele tem o mapa do meu corpo em sua boca


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4.10.2010

falar sobre o filme e o cinema
sobre as eleições
sobre desejos

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escrever: O elogio ao inimigo

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13.10

ouvir: Julie London

conseguir: ler Ulisses

meditar

ver: O filme do Joy Division

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o mais difícil de todas as decisões é ROMPER
ROMPER


R O M P E R

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16.10.2010

pintei as unhas de lilás, que cor linda, depois pintei de laranja. não pinto as unhas sempre. gosto delas curtas e nuas. mas quando faço fico hipnotizada olhando pras mãos o tempo todo. olho pra elas fazendo tudo, pegando algo na prateleira, abrindo a maçaneta. parecem mãos alheias. lindas e alheias





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domingo 17

Praia. eu e Pi. a primavera é a melhor época do ano: sol gostoso, flores explodindo e poucos turistas. encontramos J e N no caminho, pegamos carona. eles tinham uma prancha de surf no carro. obaa! no caminho eles acenderam um. isso me lembrou meus 17 anos quando tudo na vida era ir pra praia surfar e sempre no caminho acendiam um. vários litorais. leblon, reserva, joatinga, grupari, floripa, garopaba, guarda, rosa, olivença, san diego, trestles, arpoador. hoje arpoador. por do sol sentado na prancha. vida de golfinho. hoje ponho a ganga na areia (quem diria) como se tivesse nascido fazendo isso. a vida pode ser bela e a felicidade chega quando a gente se distrai.

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atração. funciona.

" a próxima fronteira não é o espaço e sim a mente"

oh bruta flor do querer. oh bruta flor, bruta flor !

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fase boa. muitos sonhos. abro o olho antes da hora definitiva de acordar e lembro absolutamente tudo que sonhei. tudo. fecho o olho, durmo o paraíso em 10 minutos. tenho 20 mil imagens - não chamo mais isso de sonho - que são mais uma mistura de devaneios com ressaca moral - sim sou virginiana - não lembro mais de NADA! sonhos esquecidos.

'você está me convidando, menina quer brincar de amar' (tocando agora)

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sempre soube, desde a época que estudei nos EUA que os indianos eram bons em matemática. ontem vendo tv as 4:48 da manhã - insone a essa altura da vida - descobri que eles inventaram os algarismos decimais. primeiro do 1 ao 9. depois faltava um número para que eles pudessem avançar. descobriram: o zero. centenas de anos depois os ocidentais chegaram ao zero e proclamaram a sua autoria. depois de inventarem todo o sistema decimal os indianos avançaram na trigonometria, entendendo a relação matemática entre os ângulos do triangulo e o comprimento do seus lados. como a lua, o sol e a terra formam um triângulo eles conseguiram calcular a distância da lua pro sol, do sol pra terra. formularam as primeiras equações com duas incógnitas, x e y. os indianos não usavam os números apenas para contar coisas, panos e vacas. eles tinham uma visão abstrata dos números. o que possibilitou os indianos avançarem tanto na matemática foi o poder da ABSTRAÇÃO.
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28.09.2010




agitada e fragmentada


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eu só penso nisso
eu só quero isso

isso me lembrou um poema que escrevi quando tinha 18 anos. nessa época eu só queria uma coisa, hoje eu quero outra. meu querer evoluiu, penso eu. mas de qualquer forma

eu só penso nisso
eu só quero isso

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domingo, 24


ele disse que me visto que nem uma maluca, que faço misturas sem nexo. tudo bem. tem alguma coerência em uma pessoa incoerente e maluca se vestir de forma incoerente e maluca. ok. estou no caminho certo. no meu lugar. no way out.



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eu pratico domingos sem sair de casa



Banal

Coisas que pensei na Caixa Econômica Federal da Gávea enquanto espero cerca de 3 horas pro gerente me atender

1) aparece um homem com o pé amputado. ele usa uma botinha ortopédica. não tem todo o pé amputado, só a metade, não tem os dedos mas tem calcanhar. usa meias sob a botinha. tem uns 40 anos e é mulato. não parece triste, está concentrado em andar usando a muleta. Será que foi recente? diabetes? acidente? má circulação? os pés acusam coisas que se passam aparentemente longe deles. No outro pé, usa um tênis novo, novíssimo, de marca. isso me chama atenção, sinto um misto de pena e orgulho, tem uma coisa de bem cuidada nesse homem com um pé amputado e o outro pé com um calçado super legal. fiquei compadecida com essa cena. e pensei: o que será que ele faz com o outro par do tenis?

2) tem uma mulher querendo embarracar por causa do atraso no atendimento. é mais do que absurdo, é obseno. você vai na Caixa ou no Banco do Brasil e não marca mais nada até as 4 da tarde, ok? reserva o dia pra isso, para ir na Caixa. Eu sempre quero embarracar nesssas ocasiões. mas hoje não quero. e por um único motivo, eu não estou atrasada. o atraso faz loucuras com o ser humano.

3) fui atendida. a gerente é fofa. faz o tipo bem bofinho, se veste de forma sóbria, calça preta meio larga, blusa preta de manga comprida, com algo de cor escura por dentro. nenhum pedaço de pele a mostra no corpo. cabelo curtíssimo. nenhuma maquiagem. mas ela tem a voz tão doce, e um jeito tão meigo que cria uma contradição naquele visual. a meiguice é o auge da feminilidade. ela tem o auge da feminino no auge na falta dele. ela sentada de frente pro computador eu do outro lado a observo enquanto ela trabalha. percebo como é descobrir alguém. não presto tanta atenção ao que ela fala, mas sim no contorno do seus traços, nos olhos grandes e a sobrancelha fina e natural com pelos fora do contorno (raro hoje em dia). vou mapeando seu rosto. ela tem lábios carnudos, sensuais e um sorriso infantil, com dentes pequenos e gengivinha aparecendo. mais uma contradição. ela me lembra alguém. parece da mesma família. eu saio fazendo laços familiares na rua, porque acho os traços de uma pessoa muito parecidos com os de outras. tive vontade de perguntar. a gente descobre alguém assim. mapeando os poros. a gente conhece alguém assim, pedaço por pedaço.



segunda-feira, 18 de outubro de 2010

oo:oo

amo olhar no relógio e ver esse número. penso: início


eu acredito em domingos sem sair de casa

domingo, 17 de outubro de 2010

Manual para pousar cangas


  1. Nao peça ajuda pra ninguem
  2. não se importe em estar de frente para o sol
  3. é melhor ficar de frente para o mar
  4. faça travesseiro de areia se preferir (não tenho feito)
  5. perceba a direção do vento
  6. dê as costas para ele
  7. segure a canga com as duas mãos
  8. observe seu vôo por alguns segundos. ela voa em suas mãos
  9. vá abaixando aos poucos
  10. toque o solo devagar
  11. até que ela encoste toda a sua extensão na areia
  12. forme pequenos morrinhos, se aconchegue no solo quentinho
  13. aprecie com moderação




terça-feira, 5 de outubro de 2010









O Jabor falou uma coisa que pra mim faz sentido: as pessoas estão hoje à procura do quê dizer. Não há mais uma filosofia, um movimento, uma visão politica mobilizadora. Não existe mais uma causa. daí vem o cara falar da fome do nordeste, mas ele não conhece a fome do nordeste. por isso eu falo do que eu mais conheço, de mim.








domingo, 3 de outubro de 2010

Eleições Inocentes

Acordei sem preguiça pra votar. comi pão com ovo (com requeijão) e café sem açúcar, que depois de muitas tentativas desce com prazer. tenho apreciado os sabores amargos sem fazer cara feia.
resolvi ir a pé. com tempo, distâncias toleráveis, sempre prefiro ir a pé. do Vidigal ao Leblon é agradável. dia eleitoral tem uma atmosfera quase festiva. é um pouco estranho.

triste caminho. a rua principal do Vidigal é praticamente um aterro sanitário de tanto papel, cartaz , gente com camisa de partido distribuindo santinho pros desinformados, pros ignorantes, pros inocentes. Boca de Urna. Uma boca a mais, uma boca a menos realmente não faz diferença, não é mesmo?
Encontrei um conhecido na descida, ele parece feliz. ele é inocente e por isso é bonito. Pergunto:

- em quem você vai votar?
- Crivella.
eu recuo (foi impulso, juro) e pergunto:
- voce é evangélico?
- sim (sorrindo).

prossigo a minha caminhada. nessas horas eu lembro que não vou mudar mundo numa resposta. tenho complexo de heroína e por isso essa constatação é sempre dolorida. continuo.
continuo.
'Júlio Lopes 1111', colado por TODA a Avenida Niemeyer. os candidatos tem números fáceis! vou ter que fazer força pra esquecer esse número. é estratégico no Brasil, país de burros, analfabetos e preguiçosos se multiplicando. chega na urna e não sabe em quem votar, lembra, 1111! pronto solução fácil!

desespera-dor.

Não posso cobrar muito de quem não recebeu quase nada. mas tem gente - com a sacola cheia de presentes - que diz "eu vou votar nulo" em ar de protestinho pequeno burguês, e não sabe citar 3 deputados. Eu só respeito quem vota nulo com conhecimento-extra-de-causa, senão eu digo PREGUIÇOSO.
chego no Leblon. nossa, é o paraíso, não fosse o cheiro de esgoto. meus amigos surfam. o mar está bom. está podre mas nenhum de nós pega micose pois temos anticorpos pro côcô dos moradores de Leblon, do Vidigal e até dos gringos do Sherathon que despeja esgoto in natura na Prainha. Mas eu acho mesmo que o côcô do Jardim Pernambuco não causa micose. Por isso praia e surf no posto 12 são pra poucos. Boca de urna no Vidigal é pra muitos. No Leblon não tem boca de urna. as ruas estão limpas. as lojas estão abertas. é feriado!

Votei. Não tenho ídolos na política. A melhor opção reside em 'o menos pior'. Mas mesmo assim tenho esperança. eu sou inocente e por isso sou bonita. as pessoas descrentes - sempre e com tudo, tudo é uma merda, blablabla - são até engraçadas se tiverem a sorte de ter humor sádico - o que é pra poucos - e têm um ar inteligente - mas eu costumo achar elas feias.

Caminhei com meus pais. foi muito bom. comemos, conversamos e olhamos coisas fúteis no shopping. em nenhum momento lembrei de quando era criança. sempre andei com padrastos e madrastas, essa cena não me soa familiar. foi interessante. voltei pra casa. tenho um humor sádico e pareço inteligente, mas ainda sim não sou descrente. a minha geração me decepciona, não como um todo, mas em grande parte. a minha classe social me decepciona muito mais. O poder está na mão de mauricinhos irresponsáveis e ex-pobres deslumbrados. eles fizeram aliança. não apenas o poder político. Quase todos os poderes. quase

eu acredito na revolução.

Não a revolução das massas, nem das classes, nem da política, muito menos das armas. Mas existe uma revolução, ela faz um sonzinho que chega na minha casa. Sou jovem e posso acreditar nisso tudo sem a menor culpa. A pior coisa é um jovem-velho descrente e feio, passeando por ai com ar de inteligente. eu me igualo aos inocentes, aos pobres inocentes, primeiro para me tornar bela.

eu acredito na beleza, por isso acredito na revolução.