domingo, 24 de outubro de 2010

Banal

Coisas que pensei na Caixa Econômica Federal da Gávea enquanto espero cerca de 3 horas pro gerente me atender

1) aparece um homem com o pé amputado. ele usa uma botinha ortopédica. não tem todo o pé amputado, só a metade, não tem os dedos mas tem calcanhar. usa meias sob a botinha. tem uns 40 anos e é mulato. não parece triste, está concentrado em andar usando a muleta. Será que foi recente? diabetes? acidente? má circulação? os pés acusam coisas que se passam aparentemente longe deles. No outro pé, usa um tênis novo, novíssimo, de marca. isso me chama atenção, sinto um misto de pena e orgulho, tem uma coisa de bem cuidada nesse homem com um pé amputado e o outro pé com um calçado super legal. fiquei compadecida com essa cena. e pensei: o que será que ele faz com o outro par do tenis?

2) tem uma mulher querendo embarracar por causa do atraso no atendimento. é mais do que absurdo, é obseno. você vai na Caixa ou no Banco do Brasil e não marca mais nada até as 4 da tarde, ok? reserva o dia pra isso, para ir na Caixa. Eu sempre quero embarracar nesssas ocasiões. mas hoje não quero. e por um único motivo, eu não estou atrasada. o atraso faz loucuras com o ser humano.

3) fui atendida. a gerente é fofa. faz o tipo bem bofinho, se veste de forma sóbria, calça preta meio larga, blusa preta de manga comprida, com algo de cor escura por dentro. nenhum pedaço de pele a mostra no corpo. cabelo curtíssimo. nenhuma maquiagem. mas ela tem a voz tão doce, e um jeito tão meigo que cria uma contradição naquele visual. a meiguice é o auge da feminilidade. ela tem o auge da feminino no auge na falta dele. ela sentada de frente pro computador eu do outro lado a observo enquanto ela trabalha. percebo como é descobrir alguém. não presto tanta atenção ao que ela fala, mas sim no contorno do seus traços, nos olhos grandes e a sobrancelha fina e natural com pelos fora do contorno (raro hoje em dia). vou mapeando seu rosto. ela tem lábios carnudos, sensuais e um sorriso infantil, com dentes pequenos e gengivinha aparecendo. mais uma contradição. ela me lembra alguém. parece da mesma família. eu saio fazendo laços familiares na rua, porque acho os traços de uma pessoa muito parecidos com os de outras. tive vontade de perguntar. a gente descobre alguém assim. mapeando os poros. a gente conhece alguém assim, pedaço por pedaço.



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